sábado, 6 de agosto de 2011

"Parabéns ao Molho de Pêsames" - Crônica de Germano Romero sobre o 426o Aniversário da Cidade de João Pessoa


A crônica abaixo é de autoria do arquiteto e urbanista Germano Romero e foi publicado no jornal Correio da Paraíba no dia 5 de agosto último, data em que o Município de João Pessoa completou 426 anos de fundação.

O texto retrata com leveza e simplicidade as violentas transformações por que passou a capital do Estado da Paraíba nas últimas décadas, que deixou de ser uma pacata cidade do litoral nordestino para abrigar praticamente todos os problemas de uma grande urbe contemporânea.

A propósito, estou publicando novamente este texto hoje porque fui alertado pelo magistrado e professor Euler Janser de que eu poderia ser processado, visto que estaria usando imagem de fotógrafo que costuma acionar judicialmente os que não pedem sua autorização previamente.

Por isso, ao invés de substituir a imagem, eu acabei deletando também o artigo, que agora está novamente disponível aos interessados.

A imagem agora escolhida é do cartunista William Medeiros, e foi utilizada como material publicitário do Grupo Paraíba de Comunicações.

Só espero que o nosso estimado Germano Romero não decida me processar, já que ele é o autor da crônica:


PARABÉNS AO MOLHO DE PÊSAMES
(Germano Romero)


Quatro séculos, duas décadas e vinte e seis anos! É o tanto de idade que fez desse lugarzinho especial, outrora cobiçado por franceses e holandeses, uma cidade. E basta ver a sua localização no mapa das Américas para constatar quão privilegiado é o local onde ele está.

Conhecida como "Porta do Sol" até na digital Wikipedia, por ter o primeiro braço de terra do continente a ser iluminado pelas manhãs tropicais, João Pessoa já foi eleita em conferência ecológica internacional como segunda cidade mais verde do mundo. Com tanta árvore morrendo, quintais que viram edifícios e mata atlântica derrubada, não sabemos até quando, ou se já era...

Nascido e criado aqui, não tendo morado em outro lugar, guardo o privilégio de vivas lembranças das suas transformações. Lembro, por exemplo, que havia bondes, que maravilha! Na tenra infância ao lado da igreja Santa Júlia, os via passar pelos trilhos à frente de nossa casa. Hoje, ainda os vejo em alguns países, que deles não se desfizeram por serem mais inteligentes de que nós.

Com dez anos de idade, fomos morar em Tambaú, numa rua que mais parecia um sítio, chamada “Marcionila da Conceição”. Um nome que decerto não agradou muito à personalidade simultaneamente ecológica e cosmopolita de meu pai, que logo bateu à porta do gabinete do então prefeito Damásio Franca e de lá saiu com o novo nome que levara para a rua de sua nova morada: Nossa Senhora dos Navegantes.

A idéia não só se deveu à proximidade com o mar, mas também ao panorama que víamos à no inverno. Imaginem que a hoje elegante, asfaltada e movimentada avenida se transformava num verdadeiro rio, que com o tempo até camarão se pescava. À noite, grilos e sapos entoavam uma bucólica sinfonia, de que temos saudade ao ouvir o barulho tão diferente que vem do busto de Tamandaré.

E os anos se passaram... O Mar dos Macacos virou Intermares, o Bosque dos Sonhos virou Estação, o Boi Só, “Alphaville”, e Mangabeira vai ter shopping. É o progresso, e, com ele, os problemas.

Impossível não ser saudosista diante dos fatos ora vividos pela aniversariante de hoje. Ônibus incendiados em assaltos, caixas eletrônicos explodidos diariamente, poluição sonora sem controle, um trânsito cada vez mais infernal, e o mar do Cabo Branco impróprio para banho.
Mas, não há a quem culpar. É o carma coletivo de todo aglomerado urbano do mundo, que a humanidade não está sabendo controlar.

Todavia, hoje cedo, no café da manhã “ecológico” do nosso quintal de Tambaú, vendo ainda sanhaçus, micos, iguanas e bem-te-vis virem ao nosso encontro para comer as frutas que lhes damos, pensei: mesmo ao sabor de pêsames, ainda é tempo de dar parabéns à cidade!

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