segunda-feira, 19 de abril de 2010

Segunda Edição do Livro "Licenciamento Ambiental: Aspectos Teóricos e Práticos"


A partir de hoje, a segunda edição do meu livro "Licenciamento ambiental: aspectos teóricos e práticos" começará a ser distribuída para as livrarias jurídicas do país. É claro que os mais apressados poderão adquiri-lo diretamente no site da Editora Fórum, onde terão acesso a maiores informações sobre a obra (www.editoraforum.com.br).

Essa é uma conquista importante, porque são raras as obras que chegam a uma segunda edição no Brasil. Além do mais, deve-se considerar que não se trata de livro direcionado para concurso público ou de um manual destinado aos alunos de graduação, e sim de um trabalho técnico voltado para uma temática específica dentro do Direito Ambiental.

Por isso, o meu muito obrigado a todos aqueles que compraram ou que ajudaram a divulgar o livro, bem como aos que contribuíram para a minha carreira na área do Direito Ambiental.

domingo, 18 de abril de 2010

Epígrafe IV - Augusto dos Anjos


É praticamente um consenso entre os teóricos da Literatura que Augusto dos Anjos é um dos mais brilhantes e originais poetas da língua portuguesa. No meu caso, desde criança eu leio a obra desse ilustre escritor paraibano, certamente influenciado pelo meu pai, que sempre foi um cultor do augustismo.


Recentemente, participei de uma discussão com alguns amigos em que se debatia uma faceta ecológica de Augusto, em razão do seu poema "A árvore". Minha opinião é que não se pode atribuir ao poeta ou à sua obra algum caráter ambientalista, no sentido em que a questão é colocada atualmente, porque não havia a compreensão de que a relação do ser humano com a natureza podia colocar em risco a continuidade da vida no planeta.


Contudo, é possível que os poetas, por conta da sensibilidade aguçada, antevissem a ligação maior entre o ser humano e a natureza, e cristalizassem isso em um texto. É o que acho que aconteceu com Augusto em relação ao poema que está transcrito logo abaixo.


A propósito, esse texto já foi utilizado como epígrafe no livro "Gestão de áreas protegidas: processos e casos particulares", que foi organizado por mim e por Ronilson José da Paz e foi publicado pela Editora da Universidade Federal da Paraíba em 2008, e no livro "Licenciamento ambiental", de autoria dos meus amigos Curt e Terence Trennepohl e publicado pela Editora Impetus em 2007. Eis o texto:


A árvore da serra

Augusto dos Anjos

— As árvores, meu filho, não têm alma!

E esta árvore me serve de empecilho...

É preciso cortá-la, pois, meu filho,

Para que eu tenha uma velhice calma!


— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!

Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!

Deus pos almas nos cedros... no junquilho...

Esta árvore, meu pai, possui minh'alma! ...


— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:

«Não mate a árvore, pai, para que eu viva!»

E quando a árvore, olhando a pátria serra,


Caiu aos golpes do machado bronco,

O moço triste se abraçou com o tronco

E nunca mais se levantou da terra!

Lindberg Farias, Senador da República


Eu escrevi o texto abaixo em 2004, quando Lindberg Farias se elegeu prefeito de Nova Iguaçu, no Estado do Rio de Janeiro - tendo o mesmo sido publicado na coluna que mantenho no portal de notícias Paraíba on Line (http://www.paraibaonline.com.br/). O artigo não conseguiu esconder o meu orgulho ao ter um primo legítimo escolhido para administrar um dos Municípios mais importantes daquele Estado, e com visibilidade política para o restante do país.

Recentemente, Lindberg renunciou ao cargo de prefeito, para o qual tinha sido reeleito com mais de 70% dos votos, para postular o cargo de Senador da República. Impende dizer que, para isso, ele teve de derrotar nas prévias a ex-Governadora, ex-Ministra e ex-Senadora Benedita da Silva, a qual, a despeito do seu enorme currículo político e do seu grande prestígio junto à cúpula petista, foi derrotada por um percentual significativo - a diferença foi aproximadamente de 65 a 35%.

Enquanto o processo eleitoral se inicia, cabe a mim apenas pedir votos para o amigo e conterrâneo, torcendo para que ele tenha êxito nessa nova empreitada. Quem sabe o meu próximo texto sobre ele não seja intitulado "Lindberg Farias, Senador da República"?...

Talden Farias


Lindberg Farias, prefeito de Nova Iguaçu
Talden Farias

O paraibano que mais brilhou no pleito deste ano foi o deputado federal Lindberg Farias, do PT do Rio de Janeiro. Aos trinta e quatro anos de idade ele se elegeu prefeito do município de Nova Iguaçu, na região metropolitana do Rio de Janeiro, com uma votação consagradora: cerca de sessenta mil votos de diferença.


Para se ter uma idéia da importância de Nova Iguaçu, basta dizer que a cidade é maior do que João Pessoa em mais de cento e cinqüenta mil eleitores e que abriga um parque industrial maior e mais avançado do que o de todo o Estado da Paraíba. Ademais, por ficar vizinho à capital, uma boa administração o credenciará naturalmente à prefeitura do município do Rio de Janeiro, ao senado ou ao governo estadual. É bom lembrar que o ex-governador Anthony Garotinho, do PMDB, saiu da prefeitura de Campos, uma cidade menor e menos importante do que Nova Iguaçu, para o governo estadual e depois para uma candidatura à Presidência da República que ficou na terceira colocação.

Em face da derrota do PT nos outros municípios cariocas relevantes, Lindberg Farias tem sido apontado como a maior liderança do partido no Estado, sendo esse o motivo pelo qual o Presidente da República Luiz Ignácio Lula da Silva fez questão de telefonar para parabenizá-lo.

Ele começou a carreira política no movimento estudantil e passou a ter destaque nacional quando foi eleito presidente da UNE em 1992 - ocasião a partir da qual se mudou para o Rio de Janeiro - e teve oportunidade de comandar o movimento dos "caras pintadas", o qual culminou com o impeachment do ex-Presidente Collor. Em 1994 foi eleito deputado federal pelo PC do B, não conseguindo se reeleger em 1998 por causa da insuficiência de votos da legenda do partido que ajudou a fundar, o PSTU, problema que se repetiria em 2000 quando foi o terceiro vereador mais votado da capital carioca e ainda assim não foi eleito. Talvez essas decepções o tenham levado ao PT, partido com melhor estrutura e pelo qual se elegeu com facilidade deputado federal em 2002.

Lindberg tem um bom acesso à imprensa nacional, tendo sido objeto de inúmeras matérias dos importantes jornais de país, desde que começou a se sobressair. O governador Cássio Cunha Lima, por exemplo, nunca teve tamanho prestígio, apesar de ter ocupado cargos mais relevantes, como a Superintendência da Sudene e o governo da Paraíba.

Foi na condição de atual vice-líder do PT no Congresso Nacional que Lindberg se preparou para chegar à prefeitura de Nova Iguaçu, onde apresentou emendas ao Orçamento da União beneficiando a cidade. Contudo, foi o carisma, a oratória brilhante e a inabalável disposição para trabalhar que o fizeram vencer o pleito.

Foram inúmeras as dificuldades. Por exemplo, o ex-governador Anthony Garotinho criou um clima de terror ao dizer que se Lindberg fosse eleito o município seria discriminada pelo governo estadual. O carro em que ele fazia a campanha sofreu quatro tiros, uma ameaça para que ele se retirasse da cidade. E o atual prefeito Mário Marques, do PMDB, colocou no guia eleitoral uma mulher dizendo que teve uma filha que ele não quis assumir, querendo repetir o jogo baixo que Collor fez com Lula em 1989. É desnecessário dizer que essa estratégia teve um efeito contrário, fazendo com que a campanha petista crescesse. De fato, para ele o processo eleitoral foi uma consagração. Aonde quer que fosse uma multidão pedia autógrafos e o mulheril fazia fila para beijá-lo, tratando-o tal qual galã de cinema. O charme e o porte físico de atleta deram a ele o apelido de "Lindoberg" ou o "Lindinho da Baixada".

Lindberg nasceu em João Pessoa, capital paraibana, e é filho do médico Lindberg Farias, um filho de Serra Branca com origens cabaceirense. Do pai herdou, além do nome, a paixão pela política, tendo o mesmo sido presidente da UNE em 1961 (inclusive, quem o sucedeu na instituição foi José Serra, do PSDB, prefeito eleito de São Paulo). Contudo, é importante destacar que o pai dele nunca exerceu outros cargos políticos, preferindo seguir carreira como médico e como professor universitário, e que Lindberg conseguiu crescer sem padrinho político ou grupo econômico que lhe apoiassem, ao contrário da maioria dos políticos jovens.

Ele fez medicina por três anos e depois começou a fazer direito também na UFPB, curso que já transferiu para a UNB e para a UFRJ e que ainda hoje não acabou devido à atuação política - obviamente não fica bem para nenhum líder estudantil encerrar a graduação. Lindberg é casado com a cientista social Maria Antônia e tem um filho chamado Lindberg Neto, atualmente com oito anos.

O candidato Mário Marques também acusou o de ser um forasteiro, mais um nordestino que quer tomar o espaço dos nativos. Lindberg, contudo, usou esse argumento de uma forma que lhe fosse favorável ao pedir votos para "o paraíba" - expressão que no Sudeste é sinônimo de nordestino. A comunidade dos nordestinos e dos filhos de nordestinos passou, então, a trabalhar para ele com tanta ênfase e entusiasmo que ele considera esse um dos fatores decisivos para a sua eleição.

"A privatização da Orla Paraibana. Ou como se Desmantela uma Identidade Paisagística..."


O artigo abaixo é de autoria da arquiteta e urbanista Rossana Honorato, e versa sobre a descaracterização da orla pessoense e paraibana de forma geral. Com efeito, nos últimos anos, intensificou-se demasiadamente a pressão imobiliária sobre a zona costeira, o que ocorreu também nos outros Estados.

Contudo, no que pertine à nossa orla, é importante destacar a vedação à construção de espigões como principal particularidade, assunto que é explicado em detalhe no texto. No meu livro "Direito ambiental: tópicos especiais", que foi publicado no início de 2007 pela Editora da Universidade Federal da Paraíba, tratei do mesmo tema em capítulo intitulado "A defesa do meio ambiente e a emenda modificadora do art. 229 da Constituição do Estado da Paraíba", procurando fazer também um resgate histórico dessa proibição.

A construção civil é um dos segmentos econômicos que mais cresce na atualidade, gerando empregos e riquezas para a sociedade. O grande desafio é obter o equilíbrio entre o desenvolvimento econômico e a proteção do meio ambiente, de maneira a fazer com que a expansão imobiliária ocorra de forma responsável - o que resume o alerta do artigo.

Convivi com Rossana na Secretaria do Meio Ambiente da Prefeitura de João Pessoa, quando ela era Secretária Adjunta e eu Chefe da Assessoria Jurídica, e posso atestar a sua preocupação com o patrimônio cultural e com o meio ambiente. Eis o texto:


Portal Vitruvius: ano 4, vol. 3, out. 2003, p. 075
João Pessoa - PB - Brasil

A privatização da orla paraibana. Ou como se desmantela uma identidade paisagística...
Rossana Honorato

Uma idiossincrasia marca a legislação urbana na Paraíba e enche a muitos habitantes de uma saudável vaidade: saber-se referência ao país pelo tratamento que dá à sua orla.

A peculiaridade reside na origem da regulação urbanística advir da própria Constituição do Estado – um feliz atropelo a ordem municipal –, ao resguardar o litoral paraibano de possíveis ingerências imobiliárias desqualificadas, disciplinando o processo de verticalização das construções na faixa dos quinhentos metros da orla das cidades litorâneas.

O regozijo decorre de uma jovem consciência coletiva, cantada aos quatro ventos por segmentos representativos da sociedade paraibana, de fortalecimento da identidade paisagística de suas praias.

Foi o Governo João Agripino (1966/1970) que motivou a prerrogativa constitucional, quando, pressionado pela ação de segmentos sociais, fez inserir na carta Magna uma primeira emenda que vetava a concessão de licença para a construção de prédios com mais de dois pavimentos no setor da orla, desdobrando-a em seguida em um escalonamento a partir de três pavimentos. A administração estadual inaugurava ali uma visão de futuro, ao reconhecer as praias como um bem de usufruto do povo paraibano, sem distinção de localidade.

A Constituição de 1988 manteve a legislação da orla paraibana, consolidando a proteção à faixa dos quinhentos lindeira ao mar através do disciplinamento de um escalonamento inicial em 12,90 metros de altura para as construções erguidas nas primeiras avenidas.

No início dos anos 80 do século passado, a questão da invasão à autonomia municipal já embasou e deu vitória a malogrado recurso de empresários dos setores imobiliário e hoteleiro ao Tribunal de Justiça do Estado contra a normativa estadual. Reagindo, o Estado fez garantir, junto ao Supremo Tribunal Federal, a preeminência da Constituição Estadual, que, julgando pela legalidade do pleito, baseou o seu juízo na Constituição Federal, referendando a tese da extrapolação do peculiar interesse do município, corroborando o direito de uso da sociedade paraibana.

Outras tentativas, nos últimos tempos capitaneadas pelo Deputado Walter Brito (em 1997 e em 2000), procederam, sem sucesso, a encaminhamentos de projetos de emenda constitucional ao Pleno da Assembléia Legislativa. Mas nenhuma iniciativa teve envergadura comparável a que a Paraíba assistiu aos 27 dias de agosto de 2003.

Argüindo sobre benefícios populares, geração de emprego e renda, recolhimento de impostos etc., um Projeto de Emenda Constitucional encaminhado pelo guardião maior de nossa Constituição, o governador Cássio Cunha Lima, articulou argumentos em defesa da extraordinária oportunidade de investimentos por parte de uma empresa cearense (processadora de derivados do trigo que em seu acervo empresarial registra incursões também no ramo hoteleiro) da ordem de R$ 100 milhões, com previsão de faturamento anual em R$ 190 milhões e a promessa de criação de 600 empregos (400, no dia seguinte à votação na Assembléia), a que a necessitada Paraíba não poderia prescindir. Compreendeu o chefe do Executivo Estadual que a nossa Constituição deveria à empresa Dias Branco adequar-se, excetuando do ditame constitucional a escolhida área do Porto de Cabedelo para construções e instalações industriais.

Sete meses foram suficientes ao governador peessedebista para demonstrar a celeridade extraordinária dos tentáculos administrativos de sua nova gestão dentro da burocracia da Assembléia Legislativa, evidenciando ainda a comunhão de esforços suprapartidários igualmente extraordinários com a Prefeitura petista de Cabedelo.

Uma Audiência pública solicitada pelo Departamento Estadual do Instituto de Arquitetos do Brasil – IAB-PB, pela APAN e pelo Mandato do Deputado Estadual Ricardo Coutinho almejou a oportunidade de um processo democrático com o objetivo de conhecer o projeto das instalações da Dias Branco e discutir alternativas, diante da insatisfação declarada contra o risco evidente de abertura de precedente e criação de jurisprudência, que a flexibilização da Constituição Estadual poderá gerar.

Nela, o representante da empresa sentiu-se à vontade para declarar a sua tristeza diante de tantas benesses oferecidas à Paraíba, “desinteressadas” intenções de um empreendimento com alta significação na geração de emprego e renda para o Estado e ser, entretanto, recebido com reações de desagrado.

Apresentando dois vídeos – um documentário sobre a Dias Branco e um simulacro de projeto arquitetônico da obra, retratando tão somente o volume da edificação e sua inserção na beira-mar de Cabedelo, em nada esclarecia o plano de intervenção. A ausência de informações e de justificativas fundamentais à sua compreensão demonstrava apenas e claramente o incontestável grau de impacto ambiental e cultural na paisagem da área, sobretudo sobre a horizontal Fortaleza de Santa Catarina, patrimônio histórico-cultural tombado nacionalmente, que sucumbirá absolutamente da paisagem praiana que lhe sedia há quatro séculos (desde 1589), diante dos vizinhos que irá ganhar: dois edifícios, um de 30 metros e outro de 60 metros, uma variação em 47 metros da altura permitida até então pela Constituição Estadual. Uma informação inclusive não veiculada na apresentação do vídeo, sendo-me prestada diretamente pelo representante da empresa, o Sr. Luis Eugênio (é este o seu nome, com o perdão de possível falha da memória).

No animado discurso do prefeito da cidade o ingênuo esclarecimento da incrível segurança do rebatimento da mudança estritamente sobre a área do Porto de Cabedelo. O que pouco se atinou, entretanto, conforme as declarações prestadas pelo Prefeito Doutor Júnior, é que inclusa à área de expansão do Porto já se projeta a praia de Jacaré.

Vinte representantes da sociedade tiveram a oportunidade concedida pelo Presidente da Sessão. Iniciando-se com a APAN, apenas esta, o Professor Aristóteles Cordeiro, do Curso de Arquitetura da UFPB, e o CREA-PB questionaram a revisão constitucional – não a importância e o significado do empreendimento para o desenvolvimento socioeconômico estadual. As demais vozes uniram-se em um só coro de defesa à investida governamental, sendo aclamados bradamente por uma representação da sociedade cabedelense ali presente.

A representação significativa da sociedade paraibana deu o aporte de que precisava o presidente da sessão, Deputado Arthur Cunha Lima, para transformar a importância daquele ato num autoritário rito de afronta à democracia.


Solicitante da Audiência pública, o IAB-PB, representado por sua Presidente Arquiteta Amélia Panet (inclusive, que ali se fazia presente retirando-se de seu repouso precavido ante a ameaça de aborto da gravidez em que se encontra), não teve o direito de fala. O Deputado Estadual Artur Cunha Lima, entendendo ter contemplado devidamente a sociedade paraibana, excluiu representações importantes, renegando ao IAB-PB e à Coordenação da Câmara Especializada de Arquitetura do CREA-PB, que ali eu representava, o direito à manifestação. Uma Audiência Pública cuja primazia deveria-se àqueles com raras ou poucas oportunidades de expressão pública, tão fartamente mal empregadas por legais representantes políticos no dia-a-dia.


O Deputado Estadual Ricardo Coutinho fazendo uso da palavra, e duramente vaiado pela platéia das galerias, protestou veementemente a revisão da Constituição, questionando a concretude das bases financeiras do acordo público porém desconhecido com a empresa, lembrando episódios recentes de empresas aqui instaladas com a total flexibilização dos impostos e recebimento de incentivos, findo o prazo dos quais, esvaem-se porta à fora.

Excedendo-se no tema da discussão, antecipou o Presidente do SINDUSCON-JP o já público e irrestrito apoio à flexibilização da legislação da orla posta pela CE, sugerindo a real mobilização que subjaz à iniciativa governamental.

Instâncias fundamentais à análise da intervenção na ponta de Cabedelo, como o IPHAN, o IPHAEP, o IBAMA e a SUDEMA, cujos pareceres devem regularmente estabelecer requisitos, subsidiados pela elaboração de um RIMA – Relatório de Impacto Ambiental, para uma intervenção deste porte sequer puderam manifestar-se comprometendo a infante caminhada paraibana frente ao mundo da consciência ambiental e do desenvolvimento sustentável.

A alcunha de hospitaleira sagra distintamente a Paraíba já há várias décadas. É explícita a nossa felicidade diante de novos empreendimentos em nossas terras que tragam desenvolvimento econômico, geração de emprego e renda. Tanto isto é verdadeiro que se sentiu em pleno direito o representante do Moinho Dias Branco ao externar a sua lamentação ao aqui chegar e deparar-se com a reação de um povo que não lhe permite chegar em sua casa e ir mudando as regras.

A mobilização em torno do PEC Nº 01/2003 chamou a atenção pela significativa representatividade social, o que evidencia as intenções de uns e os temores de outros diante de um ato não manifesto. Não resta dúvida de que a iniciativa governamental é um subterfúgio claríssimo das investidas outrora britoneanas. Tivesse o Governador dado o início a um processo de revisão constitucional de maneira declarada, amparado pelas importantes demandas de setores da sociedade que se evidenciam publicamente, através da promoção de estudos criteriosos aos impasses da atual legislação, apresentando alternativas técnicas plausíveis às restrições atuais, e teria sido mais honroso o ato contrariando o legado constitucional que nos situa no Projeto Orla do Ministério do Meio Ambiente como uma experiência exitosa em gestão litorânea no país.

O vexame governamental, entretanto, deixa clara a vetustez do modelo de gestão que tenta configurar perante a opinião pública uma baliza aos novos tempos em gestões do patrimônio público no mundo inteiro, que se esforçam na promoção de sustentabilidade às iniciativas desenvolvimentistas.

Utilizam-se, entretanto, estas forças de um argumento nefasto que visa ao comprometimento das intenções de grupos reagentes, como eivadas por uma visão apaixonada e desamparada da urgência da realidade socioeconômica. Assim, esforçam-se por macular, perante a opinião pública, a imagem de cidadãos organizados que imprimem esforços acima de interesses individuais, comprometendo inclusive a seguridade da própria sobrevivência pessoal. Que às forças reagentes que constituímos, se juntem solidariamente os profissionais da construção civil, construtores, formadores de opinião e os cidadãos sensíveis à valia da abertura de processos públicos de mudança da realidade não corrompidos por ações duvidosas maquiadas de boas intenções.

Por determinação constitucional, a zona costeira em todo o território paraibano era reconhecida como “patrimônio ambiental, cultural, paisagístico, histórico e ecológico, na faixa de quinhentos metros de largura, a partir da preamar de sizígia, para o interior do continente, cabendo ao órgão estadual de proteção ao meio ambiente sua defesa e preservação, na forma da lei”. Este era o texto do artigo 229 da Constituição Estadual posto ao chão na Sessão Ordinária do Plenário da Assembléia Legislativa, por quase unanimidade dos deputados estaduais. Desmantela-se a outrora forte identidade paisagística de um povo...

Rossana Honorato é arquiteta e urbanista, professora do curso de arquitetura do UNIPÊ e Coordenadora da Câmara Especializada de Arquitetura do CREA-PB, representando o Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento Paraíba
Minha Cidade 075 - outubro 2003