sábado, 25 de maio de 2013

Retrato de um Salto de Pára-Quedas



Naquele instante o mundo estava literalmente aos meus pés: eu tinha acabado de me desprender do avião e olhava sobre o meu ombro direito, no intuito de conferir se o pára-quedas estava se abrindo. Embora tivessem me orientado a conferir seqüencialmente cada parte do equipamento, centésimos de segundo foi o suficiente para que meu olhar pudesse perceber que ele funcionava regularmente — exceto por um pequeno embaraçamento das cordas, o qual foi desfeito rapidamente por mim. O alívio que senti nesse momento era a resposta para um questionamento que não me deixou em paz ao tempo em que a aeronave ganhava altura, que era sobre a possibilidade de o pára-quedas simplesmente não abrir. Se eu morresse, pensei com naturalidade, não seria devido a uma ridícula falha técnica ou humana, mas sim por causa de um ataque cardíaco.

Apesar de ter chegado ao Aeroclube de Caruaru pela manhã cedo, somente por volta das três da tarde é que o instrutor me convocou para o salto. Outras pessoas saltaram antes, mas a demora se deveu principalmente à preparação do avião. A princípio o nervosismo da espera me fez ir ao banheiro repetidas vezes, tendo eu depois conseguido relaxar completamente. Essa súbita indiferença me fez pensar que, provavelmente logo antes de sair da aeronave, o medo voltaria muito mais forte e talvez me tirasse a coragem para saltar. Reler a apostila do curso, cochilar um pouco e conversar eram a maneira de fazer as horas se passarem mais depressa. É claro que em um ou outro momento eu ainda duvidava da minha coragem, achando que voar era somente um atributo dos pássaros e dos deuses, mas de uma maneira geral eu já tinha bem certa em mim a decisão de saltar.

Um comando para que me movesse à direita me foi enviado pelo instrutor de navegação através do rádio antes de eu começar a checar a precisão do equipamento, o que me fez certificar que o pára-quedas se deslocava perfeitamente para todas as direções. Por um instante uma sensação que não consegui identificar nem como alegre nem triste tomou conta de mim, e eu passei a sentir que não havia saltado de pára-quedas apenas: com certeza eu havia saltado abismos muito mais que aqueles milhares de pés de altura. Eu havia principalmente saltado temores, inseguranças, egoísmos, autopiedades, apegos, ressentimentos e outros fantasmas que assombram o coração humano. Nesse instante comecei a sentir uma indiferença em relação ao mundo e aos problemas do cotidiano. Por que tanta miséria, violência, exploração, inveja, rancor, se o mundo visto do alto parece feito de brinquedo? Eu refletia ainda que a vida talvez fosse mesmo uma grande brincadeira, e tudo o que é preciso fazer é se entregar a ela como um pára-quedista solto ao sabor dos ventos e da gravidade.

A roupa para o salto era um macacão azul em cujas costas se colocaria um pára-quedas de aproximadamente 15 kg. Ao vesti-lo eu me senti como um astronauta, uma espécie de novo Armstrong a dar o seu primeiro passo na lua. Imaginei Ícaro ganhando o céu em suas asas de cera e Santos Dumont dando voltas ao redor da torre Eiffel, e quis saber que sensação eles tiveram. Mas não demorou para que o instrutor chamasse a mim e a outros dois alunos para adentrar o avião, de modo que a ordem do salto fosse contrária a da entrada na aeronave. Ao passo em que ganhávamos altura minhas mãos suavam cada vez mais e eu ficava sério e introspectivo, chegando a rezar a Ave Maria por diversas vezes. Em certo momento eu tive o impulso de comunicar ao instrutor a minha desistência, o que não fiz somente por causa da vergonha do que os outros iriam dizer. Quando o primeiro aluno pulou e me convocaram para saltar em seguida, eu cheguei a seguinte conclusão: eu era um louco. Do contrário, como é que se justificaria que eu deixasse de estar em casa assistindo a um filme ou lendo ou dormindo ou namorando, para arriscar a minha própria vida? Contudo, ao ser perguntado pelo instrutor se estava pronto para o salto, enchi-me de coragem e respondi que sim. Naquela hora, pensei, não haveria mais tempo para o medo.

Ainda em pleno vôo a minha vida começou a desfilar diante de mim. Com emoção eu reavivava cenas importantes da infância e da adolescência. Lembrei-me com igual serenidade dos momentos tristes, alegres e decisivos, e por um instante meus olhos ensaiaram lágrimas. Contudo, a realidade me era trazida de volta pelo instrutor de navegação, o qual sempre pedia para eu fazer 90º à direito ou 180º à esquerda auxiliando-me a ir em encontro ao alvo. Chamou-me a atenção o fato de que em momento algum eu senti medo, apesar de ter pensado ainda no avião que o temor poderia me paralisar os reflexos, o que significa que eu temi muito mais temer do que tive medo realmente. Às alturas um uivo me assombrava os ouvidos e um silêncio ressoava em minha mente, o  que me fez imaginar o próprio nirvana. Ressaltava essa quietude a impressão de estar estático, imóvel no ar como se eu simplesmente flutuasse sobre a órbita terrestre, o que me deixou inquieto. Por achar que eu poderia não mais tornar à Terra deixei os instrumentos de controle livres, para que eu alcançasse o solo o mais rápido possível. O fato é que em pouco tempo essa sensação se desfez, pois dos mil pés de altura até o chão tudo parece ter se passado em no máximo vinte segundos. É claro que durante todo o percurso procurei seguir com precisão as instruções de navegação.


Finalmente, meus pés pisaram o chão. Caio de mau jeito machucando um pouco os joelhos e ferindo as mãos com dezenas de espinhos. O vento arrasta o meu equipamento e apesar do comando que recebi através do rádio encontro dificuldade para freiá-lo. Mas não me importei com nada disso, afinal de contas eu tinha saltado de pára-quedas. Os cinco ou seis minutos do salto foram a um só tempo os mais longos e mais breves da minha vida. Algumas pessoas vieram em minha direção querendo saber se eu estava bem e o que é que eu tinha achado da experiência. A verdade é que embora meu corpo estivesse ali, estirado ao solo, a minha alma levaria ainda horas para descer do céu. De fato, se não me tivessem ajudado a levantar e a caminhar em direção ao hangar, eu talvez teria passado horas ainda ali. Mesmo tendo ido ao céu eu não tinha avistado Deus, só que a paz que eu sentia me indicava que eu O estava sentindo. Após agradecer a proteção do meu anjo da guarda eu olhei para o céu e pensei no quão bonito é um dia de sol, um pára-quedas colorido e um aprendizado diferente.

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